sábado, 28 de fevereiro de 2009

Prata da casa: "Análise dos contos Dois Irmãos"


Eu já sei o que eu vou ser.
Ser quando eu Crescer.
Renato Russo


A literatura possui um encanto, mágica que nos leva aos mais diversos pontos de vista e um deles é a Psicanálise.

A teoria psicanalítica foi desenvolvida por Sigmund Freud ( 1856- 1939), teoria a qual Bruno Bettelheim faz uso, como especialista na área, na literatura “infantil”, e entre os diversos contos abordados em sua obra A Psicanálise dos Contos de Fadas, dá-se ênfase nos contos dos Dois Irmãos.

O conto dos Dois Irmãos, na verdade há várias versões, porém “em todas as variações deste conto, os dois personagens simbolizam aspectos apostos de nossa natureza” ( Bettelheim, 2004) e o conflito edípico.

Na versão egípcia do conto é importante frisar um acontecimento o qual a mulher do irmão mais velho tenta persuadi-lo que o seu irmão mais novo tentou seduzi-la, esse ato dentro do âmbito psicanalítico chama-se: projeção.

A projeção ocorre para evitar um “desprazer” da realidade, é um mecanismo de defesa, a pessoa localiza algo indesejável de si e projeta no mundo externo, um exemplo é quando alguém critica o outro por ser muito desajeitado e não se dá conta de que também é.

O acontecimento da projeção no conto é importante, pois faz a criança perceber (inconscientemente ou subconscientemente) suas ações perante a realidade.

Na versão dos Irmãos Grimm, os irmãos do conto vão para a floresta e separam-se, sendo que um tem de salvar o outro depois de um tempo. Essa versão sugere um equilíbrio do aparelho psíquico (id, ego, superego ou inconsciente, pré-consciente e consciente) afinal, cada elemento não pode ser habitado por uma noção de vazio, mas sim pelas experiências pessoais e particulares o que constitui o sujeito em relação com o outro.

Uma versão interessante é quando os dois irmãos vão se aventurar pela floresta (a incerteza de que somos) e um dos irmãos acaba tendo seus desejos (provavelmente sexuais) realizados pela bruxa (figura distorcida da mãe) e quando ele recusa a obedecê-la acaba sendo punido. Esse fato é interessante por representar o complexo de Édipo, pois para o próprio Freud o primeiro impulso sexual é dirigido para figura materna no caso do menino e paterna no caso da menina.

A relação edipiana suscita sentimentos dicotômicos, ambivalentes e explosivos, tanto amor quanto ódio, com essa descarga emocional criança teme ser punida pelos seus desejos proibidos gerando culpa.

Vencido o sentimento de culpa (quando os dois irmãos estão juntos novamente sugerindo uma integração harmoniosa do aparelho psíquico e da personalidade) tanto o pai quanto a mãe são modelos de amores para o futuro da criança.

Pode-se dizer então que a literatura infantil abre um novo olhar para as diversas manifestações do ser.



Raphael Franck

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Prata da Casa - Apólogo sobre a insanidade

Meu maior sonho, desde que eu era um erezinho que nem sabia falar direito - minha mãe disse que eu demorei mais do que o normal pra começar a falar, provavelmente foi culpa da Da Cruz, que não tinha filhos e tinha feito macumba pra eu não falar... coisas que o povo, que não é a voz de Deus, fala - era subir em um balão cor-de-abóbora e sair sem rumo pela imensidão vermelha do céu no pôr-do-sol. Eu sempre adorei o fim do dia porque é nessas horas que aqueles homenzinhos da cor das nuvens do crepúsculo aparecem e roubam os nossos lápis de cor. Minha tia Juraci me dizia pra eu largar de ser besta e parar de sumir os lápis e por a culpa nesses tais homenzinhos, até porque esses tais homenzinhos não existem. Depois eu ouvi a voz dela dizendo que essas coisas de sumir com as coisas e botar a culpa em "seres que não existiam" já estava indo longe demais. Imagine só, mana, meu disco do Raça Negra sumiu e ele disse que foram os duendes pagodeiros, aqueles que aparecem perto da época do carnaval. Depois disso concluí que minha tia Juraci não entende nada da vida - os duendes nem gostam de Raça Negra... quem gosta são os gnomos, mas isso é outra história. O que importa é que meu maior sonho era subir em um grande balão cor-de-abóbora e tocar o topo do céu. Eu nem ligava pro que diziam os meus colegas na escola, que o céu era quente e que ninguém pegava lá para não queimar os dedos.
Meu pai gostava de samba. Uma vez ele ouvia um samba muito bonito que falava de amor, tristeza e que ele tinha vontade de sair voando pra esquecer da vida de um certo amor que virara desatino, alguma coisa assim. A idéia de sair voando por aí num mundão transparente ganhou tanta força que me tornaria baloeiro quando crescesse. Queria dar voltas e voltas ao redor do mundo, sem a promessa de voltar, sem a dor de partir. Dessa maneira, saberia qual era o doce da liberdade sem o amargo da saudade atrapalhar. Porque sempre lembraria com ternura dos momentos de pé no chão, em terra firme. Não é bom sentir saudades, por isso sempre olharia para baixo quando começasse a sentir. Quando olhasse a terra, aquele povo bem miudinho passando de um lado para o outro, pensaria que era o meu povo e veria que nada de mal havia, ficaria em paz.
Talvez não desse tão certo viver pra sempre nas alturas. Quanto mais se voa, mais longe da terra se fica, mais impossível é de retornar. O céu é mais belo que a terra, e esta menos preciosa que o mar.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Prata da Casa - Cena na beira de um cais em qualquer lugar do mundo

Ela olhou para o copo vazio em cima da mesa e perguntou se valia a pena amar alguém daquele jeito. Os cabelinhos do mar, aqueles mais finos que cobrem a nuca - mesmo aquelas que tem o cabelo mais grosso têm no pescoço aqueles pelinhos tão gostosos e macios que dá vontade de cortar e levar pra casa porque têm um cheiro gostoso, um gosto suave de carinho -, já faziam cócegas na gente anunciando a hora de ir embora. Ainda não conseguira responder como alguém podia amar daquele jeito; logo ela, que tinha cheiro de peixe e amendoim. Minha flor, minha vida, meu amor... Sua paixão era a flor que ganhara quando ainda era menina moça, quando ainda nem sabia o que era menstruação, quando pensava que a lua era a morada de seu principe encantado. Depois descobriu que seu príncipe era São Jorge e que ele lhe traria o dragão que era seu prisioneiro. Ela olhou para o copo vazio em cima da mesa e lembrou-se que sua vozinha dava marafo pras galinhas antes de matá-las. Coitadas das bichinhas, pensava, sentida. Achava um desatino matar as galinhas para comer. Comia sem pesar. Comer as galinhas, tudo bem, agora matá-las.... um absurdo, meu Deus! Na certa pensava que as galinhas de se comer não morriam com marafo e peixeira na garganta.
Olhou para a garrafa que esvaziara sem nem saber onde estava mais. Os cabelinhos da nuca do mar, ou da Dona Janaína, como diziam os homens da beira do cais, já não eram tão finos. Estava quieto demais. Olhou para o amor que estava agora ali na mesa, à sua frente, entre ela e a garrafa. O amor, que lhe falava sobre a vida amiúde, que abandonava as lágrimas escarnecidas de tristeza. Não compreendia porque amava tanto o amor. Na realidade, não amava ninguém, nem jamais amou. Amou tão-somente o amor, a pior coisa que alguém pode amar nesta vida. Amava o olhar perdido nas nuvens que dançavam as mais variadas formas, tentando encontrar a imagem de uma ilusão. Amava o palpitar do coração quando esperava alguém chegar, sem nem mesmo lembrar-se de seu rosto. Amava a repetição da ansiedade que dava quando assistia a cenas de casais enamorados, a sede de viver um grande amor de novela - São Jorge matava o dragão, lá na lua e ela podia sentir o sangue dele verter sobre o solo branco e empoeirado de uma cratera; Dona Janaína balançava os cabelos ao vento, agora molhados e embalsamados de perfume de flores. Entretanto o que realmente amava era o fato de poder dizer que amava. Agora, as lágrimas de um amor que nunca foi amor vertiam junto com as da chuva, que levava tempo para secar.
Ela olhou para o fundo da garrafa, que agora se enchia com as gotas da chuva, salgada como o mar. Não podia entender como alguém podia amar tanto assim.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Prata da casa: "Poesia Crônica do Amor"

Remédio da minha alma, qual seria?
Vou procurando vertentes pontos deslocados...
Desço pela espinha, toco a vertebral...
Massageio os ombros
Beijo-lhe os pés...
Mordo os ouvidos...
Viajo entre todos os lábios...
Ah...
Pensar, penar e novamente pensar.
Incandescer a alma com sussurros da sua...
Ocasião oportuna é o que falta para aqueles que desejam amar.
É quando penso realmente em cometer um crime, quando vejo um rosto alheio e sinto uma vontade de tocá-lo, mas reparo quando meus olhos já estão tocando aquela face há tempos, então passo a mão sobre meu queixo e reparo quanto posso ser criminoso...
Mas é realmente um crime desejar a beleza do outrem?
Hoje é a suavidade
é a brisa que solta aos olhos
às sombras de seus fios capilares
à melindrosa carne recheada de beleza...
Hoje está tudo, um pouco, mais limpo...
Hoje é simplesmente!!!
Quando digo: "quem sou" penso em tantas coisas nunca consigo chegar a um ponto definitivo...
mas sou aquele que gosta das sensações,admira os sonhos e gosta de pisar na realidade e ao mesmo faz o inverso , admiro as letras...as palavras
os olhos, o tato, as frases ...adoro a boca que pronuncia amor...
Sou aquele que gosta das pessoas que possuem sentimentos ternos, pessoas que se emocionam com o suar da música, do som!!!
Sou aquele que gosta de escutar de observar...
E sempre penso nos meus trintas anos como um amanhã!!!
Sou aquele que sempre procuro algo e sempre espero algo sem medo de compartilhar um sorriso...
Ainda sei que sou cinza viva que espera se espalhado por toda vida...
Sou aquele que faz parte do incêndio.
É chegada a hora de ir, um até logo.
Enquanto isso deixe minha solução te adormecer.
Dia seguinte acordaremos e vamos olhar um pro outro...
E dizer temos mais um dia a ficar juntos.
É com grande prazer fecho os olhos.
Embrulho-me ao seu lado.
E digo; Boa noite.
Anjo.
Anjo pornográfico.....
E que vivemos nossas paixões...
Todo prazer deve recorrer de uma emoção...
de qualquer idéia da força e do desejo...
Sim de matar a fome com emoção...
Qualquer droga...
Da lentidão de qualquer queda
Eu quero ser anestesia...
Anjo.
Cometer um crime? Sim, Amor.


(Raphael Franck)

Prata da Casa: "Pensando sobre os textos infantis"


Como uma criança não pode posicionar-se diante da arte? Será a criança isenta de pensamento ou será o adulto incapaz de refletir na linha de pensamento da criança? Decerto a arte carrega uma demasiada complexidade, mas isso não impede a criança de obter sensações perante uma apreciação seja essa escrita, oral ou somente visual.

A literatura infantil supera o padrão convencional (tradicional) de se fazer literatura, pois ela trata de questões existenciais, cotidianas, de forma simples e lúdica, assim como o universo da criança.

Que mal há então em escrever “textos infantis”? Ao questionar o valor do gênero “infantil”, deveríamos estender essa “desconfiança” também a outras “literaturas”.

O que é literatura Romântica? Realista? Realista-fantástica? Ao questionarmos autores como Hans Christian Andersen com Soldadinho de chumbo e seu valor literário não deveríamos questionar também Humberto Eco com o Em nome da rosa?

Sabemos, nós, que a literatura infantil é contada por adultos e escrita por eles, porém isso não impede a criança de observar os fatos do texto e indagar acerca deles ou até mesmo questionar os valores ali vinculados.

Limitar-mos-emos em literatura se não levarmos em consideração a posição da arte para as “pequenas mentes” em desenvolvimento.

Pensamos então no painel Guernica de Pablo Picasso, tomemos um adulto e colocamo-lo perante a obra, imaginemos que tal adulto nada sabe sobre História da arte, mas mesmo assim questiona o valor estético da composição entre os elementos, as formas retorcidas e fora do padrão Clássico e ainda afirma que aquilo não pode ser chamado de arte, sua postura não se caracteriza como uma posição perante a imagem de Picasso? O mesmo pode ocorrer com a criança.

A função da arte, no nosso caso da literatura, é criar inquietação, trazer sensações e lançar perspectivas. Barthes(2000) em sua obra O grau zero da escrita afirma: “não há literatura sem uma Moral da linguagem”.

A partir destas observações, que todo adulto leia e reflita acerca de Chapeuzinho Vermelho, Peter Pan, Soldadinho de Chumbo e das infinitas possibilidades sugeridas pelo universo do maravilhoso.


(Raphael Franck)

Prata da casa - Sem nome

A ala infantil tá afetando os meus textos.


- Eu não quero crescer.
- E quer morar na terra do nunca?
- Eu não gosto da Sininho, não gosto que mecham no meu nariz.
- Então por que não quer crescer?
- Eu não quero esquecer os meus sonhos.
O meu pensamento mudou de direção. Não estava mais preocupado com a enfase que ele dava ao pronome ‘eu’. Ele me encarava com os seus olhos de mel como se me desafia-se a mentir.
- E por que perderia?
- Porque é o que acontece quando você vira gente grande. Você esquece os seus sonhos porque tem coisas demais pra se preocupar...
Fitei-o por um segundo ou mais, havia tanta inocência e tanta verdade naquelas palavras que não consegui rebate-lo. Não poderia.
- ... eles compram o melhor carro pra resgatar a princesa, e simplesmente a deixam ir embora. Arranjam o melhor emprego do mundo, e não tem tempo pra se lambuzar de sorvete e caçar dragões. Juntam o dinheiro e põe no banco pra ganhar mais dinheiro, impedindo o Hobin Wood de rouba-los. AH! Entendi tudo.
- Entendeu tudo o que?
- Tem muita gente pobre hoje em dia.
- E?
- A culpa é dos bancos. É dificil pro Hobin rouba-los, todas aquelas trancas e portas e senhas...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ah! Eu não acredito - Pornoclete

Arrumando a história me deparo com isto:
(figurinha antiga de chiclete)

Agora, responda se puder:

Qual a relação entre a Tiazinha e a história?


Gracias,
Anita M.B